sexta-feira, 3 de julho de 2009

Voto inútil

Agora que estão passadas as Eleições Europeias e que ainda faltam uns meses para Legislativas e Autárquicas, sinto-me à vontade para falar numa espécie de teoria preconizada por muitos eleitores que se dão ao trabalho de exercer o seu direito de voto.
Desta forma, não venho aqui defender que se vote em A, B ou C, quero apenas pôr em causa a frágil estrutura desta ideia enraizada na nossa sociedade.

Ora então, quando falo com amigos, conhecidos ou, até, estranhos sobre eleições, especialmente no que às Legislativas diz respeito, por vezes confidencio as minhas intenções de voto e oiço também as intenções das outras pessoas. Muitas e muitas me dizem que votam em quem possa derrubar o Governo (sim, porque em Portugal vota-se para derrubar algo e não para tentar eleger os que achamos melhores), ao que eu respondo que é muito vago, tentando perceber em que partido em concreto irão votar, se assim não se importarem de me o dizer. E é nesse preciso momento que surge a hilária teoria: vota-se num partido que possa ganhar, como se estivesse escrito algures que entre “x” partidos, apenas 2 podem ganhar. Ou seja, as pessoas olham para as sondagens e vêm quais os dois partidos que aparecem na frente (PS e PSD) e depois basta escolher o que está na oposição, para castigar o Governo.

Bem, eu concordo que se as pessoas consideram que o Governo está a fazer um mau trabalho, então devem de procurar alternativas. O problema aqui é que não há procura nenhuma: entendem que a única forma de trocar de governação é votar no partido da oposição que aparece melhor nas sondagens – dizem-me que apenas esse pode “roubar” votos ao PS ou PSD, conforme quem está na altura no Poder. Se isto é verdade deixo aqui uma sugestão: coloque-se no boletim de voto apenas PS e PSD, para não cansar a vista aos eleitores!

Mas esses eleitores que conseguem teorizar tão brilhante raciocínio, não são capazes de perceber que passados quatro anos estão a votar nos mesmos que querem derrubar no Presente. E assim sucessivamente. Sim, porque se vão mudando as caras dos Primeiros-Ministros, boa parte dos deputados continua na Assembleia e muitos membros de ex-Governos voltam à Governação.

Continua a fazer sentido o voto útil? Vamos lá, mais um esforço então se existe alguém que ainda não possa compreender: não faz sentido oferecer-mos uma maioria absoluta a alguém que também já deu provas de incompetência na função, mesmo que acreditemos que só se pode governar com maioria absoluta. O que será pior: não ter maioria absoluta - que é um horror para muita gente, mas não para mim -, ou ter uma maioria absoluta incompetente e desinteressada dos reais problemas do País e dos seus cidadãos?

O sistema está pútrido há muito e não percebo como se pode defender que continuemos a entregar o nosso voto a esse tipo de gente. Senão, relembro-vos aqui dois tristes episódios que são bons exemplos daquilo que esses senhores fazem pela Assembleia da República:



6 comentários:

Arsénio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

Expõe e defende ideias tão persuasivas que só quem estiver perdidinho de todo as não subscreverá! Porém, anda muita confusão como poeira espalhada pelo ar, no interesse de certas propagandas partidárias, pelo que são positivos todos os esforços para colocar o assunto no seu justo entendimento.
Entretanto, não posso deixar de notar a propósito que o sistema eleitoral é tema assaz vasto e complexo e também arena de imenso confronto ideológico. Por exemplo, e só para começar, vamos admitir aí que uns eleitos fiquem mandatados para exercícios de uns quantos anos durante os quais, impunemente, escarnecem das promessas antes feitas? Repito, só para começar...
Abraço cordial.

Fernando Sosa disse...

Não sei se percebi correctamente caro amigo. Nesse seu exemplo está a referir o que se tem verificado ou o que se pode verificar mesmo que se vote noutros que não PS e PSD?
Devo ter falhado o sentido do exemplo...

Cumprimentos e até breve!

Arsénio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

No trecho em foco, sublinho o potencial que qualquer sistema eleitoral apresenta como arena de confronto ideológico geral. Só isso. Portanto, já me afastava bastante do tema principal do seu post nesse meu a-propósito. Em suma, pretendo significar que não conheço sistemas eleitorais «inocentes», entendendo-os como portadores de uma certa ideologia. Estarei a tomar a nuvem por Juno?!
Cumprimentos.

Fernando Sosa disse...

Possivelmente não caro Arsénio Mota.
No mundo da política a inocência não toma lugar. Porém, poderemos tentar buscar a decência, mesmo sem inocência.

Cumprimentos.

Anônimo disse...

Eu considero que está na hora de retirar regalias políticas e sociais aos deputados e governantes!
Está na altura de serem eles a mostrar o seu interesse pelo país e abdicar dos aumentos estrondosos, dos subsídios e dos direitos que continuam a receber quando termina o mandato, ou quando se demitem, ou são demitidos!
E já agora, que tal trabalharem efectivamente até aos 65 anos e trazerem só nessa altura uma única reforma?
E já agora, que tal receberem só uma reforma e perderem as outras a que têm direito, por terem conseguido "trabalhar" em 4 ou 5 dignos postos durante 4, 5 ou 10 anos?
Sim, falo por mim, não consigo cumprir 8 horas de trabalho presencial em dois empregos!
E se conseguisse, parece-me que não posso acumular 2 míseras reformas.
Está na hora dos políticos olharem para o país e para quem realmente trabalha para que eles estejam no cadeirão com o traseiro suado!
Está na hora da classe política fazer sacrifícios em nome do nosso Portugal, talvez isso convencesse o Zé Portuga a votar utilmente e a participar mais na vida pública!
Quando digo participar, quero dizer sair de casa e ir votar, por achar que alguns políticos merecem que o eleitor de desloque para exercer o seu direito de voto!
Está na hora de analisarem a enorme % de NÃO VOTANTES! Tenho a impressão que os não votantes são a maioria e são eles os vencedores!
Está na hora dos políticos se perguntarem, porque é que os portugas não exercem o seu direito de voto!
Está na hora de colocarem a mão na consciência!
Marianne

Fernando Sosa disse...

Pois é amiga Marianne, percebo tudo o que diz. Os portugueses estão fartos desta pouca vergonha. Porém, o sentido em que aponto é que não é por votar na oposição apenas para derrubar Governo que as coisas vão melhorar.
E pegando naquilo que diz, também não será não votando que as coisas vão melhorar.

Os portugueses que nada fazem têm o que merecem. Esta é a minha opinião.
(Claro que falo principalmente daqueles portugueses que tiveram acesso a uma "Educação mínima", quer através de casa quer a nível escolar.)

Cumprimentos.