
Como aqui chegaste sem-abrigo? Foram as drogas que te empurraram para o precipício? Uma grave contenda familiar originou o colapso do teu lar e foste tu o elo mais fraco? Ou terá sido um desemprego prolongado, alavancado por sem ninguém viveres? Talvez uma qualquer doença psiquiátrica tenha tornado impossível o teu relacionamento com outros de um modo socialmente aceitável… Poderá, também, ter sido uma opção própria, buscando uma qualquer liberdade a roçar o divino, planeada num momento de devaneio. Ou eras tu um antigo presidiário, que após libertado não alcançaste a tão falada, mas menos conseguida, reintegração social? Ou nada disto ou de tudo um pouco…
Afinal, de ti nada sei sem-abrigo. Apenas me fere a alma imaginar uma pessoa, de pele e osso como eu, aguentar o tormentoso vento de Inverno Boreal, assim como a chuva gélida, quiçá neve, como temperaturas negativas. E quantos não vão ficando para trás… E desses quantos serão lembrados?
E custa-me pensar que alguém pode passar por pastelarias, restaurantes e super-mercados, de estômago oco e assim continuar.
E o que será não ter o conforto de uma cama, ou um sofá que seja? Até mesmo de um simples colchão no interior de uma casa, com macios lençóis e confortável almofada...
E não poder falar com a mãe ou com o pai? Não ter um irmão ou um primo a quem contar as últimas ou discutir a banalidade que é a previsão meteorológica com base no percurso que as gaivotas levam.
E não poder tomar um banho quente, relaxante? E não poder andar na rua todo aprumado, sem que ninguém nos olhe de soslaio?
Não serão todos vós culpados; não serão todos vós inocentes. Mas terá forçosamente de perturbar, nem que apenas por um minuto que seja, qualquer cidadão consciente as condições indignas a que os sem-abrigo são diariamente sujeitos.
Mesmo vivendo no seio de uma sociedade alienada pelo ritmo inexorável de uma grande metrópole, eu sinto-me abalado. E sinto-me até envergonhado de desviar o olhar…
Foto retirada de: http://rochasousa.blogspot.com/