domingo, 2 de março de 2008

Alhos e bugalhos

Após uma semana atribulada, em que existiu aquilo a que nomeiam os noticiários nacionais como uma “onda de crimes violentos”, é necessário realizar alguns esclarecimentos. Pois bem, já se sabe que em épocas de crise ou de terror no seio da população – o ilustre caso do 11 de Setembro é, talvez, o melhor exemplo – é mais fácil que o habitual fazer acreditar os cidadãos da necessidade de medidas drásticas. Por vezes tais medidas são fundamentais, mas na maioria das situações tudo não passa ou de aproveitamento político ou de imbecilidade, já para não falar de quando andam de mãos dadas.


Ora, no final desta semana já existem vozes que se insurgem contra a posse legal – e leia-se bem: LEGAL – de armas. Aquela velhinha que já foi assaltada três vezes ou o pai que vê gangs juvenis roubarem e agredirem adolescentes irão num primeiro momento, por certo, aplaudir tal discurso heróico de qualquer político que o faça, por mais que o tenham criticado a ele ou ao seu partido no Passado. Claro que ainda subsistem algumas pessoas com dois palmos de testa e, após a primeira reacção, apercebem-se que afinal tal medida poderá não ser tão brilhante. Infelizmente, a grande maioria das outras velhinhas e pais – apenas a título exemplificativo – vão continuar a idolatrar o grande salvador que é o político X. E assim se cria espaço para a asneira de mais uma medida política que faz tudo menos resolver os problemas.


Para quem ainda concorda em acabar com a posse legal de armas aqui vai a explicação, dada pelo General Leonel de Carvalho, secretário-geral do Gabinete Coordenador de Segurança (GCS): os casos de violência em Portugal estão sobretudo ligados ao consumo de droga e à criminalidade organizada, como os roubos a máquinas Multibanco e a automóveis – caso do carjacking.



Será que aquele tipo que é toxicodependente desde os 16 anos, que nunca teve um emprego fixo e não terminou o 10º ano de escolaridade tem acesso a uma arma de forma legal? E aqueles ex-presidiários que após cumprir a pena voltam a cometer crimes, nos quais utilizam armas de fogo, podem obter licença de uso e porte de arma? E todos os outros criminosos? Conseguem eles tal licença?



Se a classe política nacional se importasse realmente em resolver os problemas não apresentaria sugestões tão irracionais. Bem, mas apenas são irracionais partindo do princípio que o fim a atingir é a diminuição da criminalidade e insegurança na sociedade, pois se o fim for outro, tal como restringir os direitos dos cidadãos portugueses, então acabar com a licença de uso e porte de arma é sem dúvida brilhante dada a conjuntura!

2 comentários:

Anônimo disse...

Prometer é muito fácil para qualquer político, principalmente quando querem votos e poleiro!
De qualquer forma, não me parece que as pessoas honestas comprem legalmente uma arma e que a saibam usar para defesa própria! A grande maioria tem até medo de ter uma arma em casa!
Um criminoso terá sempre e de forma rápida e fácil qualquer arma e sabe muito bem como utilizá-la!
O que é urgente, parece-me, será travar essa venda de armas e travar o seu uso.
Infelizmente já lá vai o tempo em que Portugal era um paraíso e era pacífico...
Utópicamente, vamos tentar continuar a sonhar com a paz, a segurança e com a felicidade que elas nos poderiam dar!
Marianne

Fernando Sosa disse...

Cara Marianne,
Logicamente que também estou de acordo quanto à urgência de combater a venda ilegal de armas. Mas num mundo tão cínico como o nosso todos os esforços no sentido de atingir uma paz local ou global parecem ridículos. O que quero dizer é que se os cinco países - EUA, Rússia, Reino Unido, China e França - com direito de veto no Conselho de Segurança da ONU (organização que deveria zelar pela paz recorde-se) são também os líderes mundiais na indústria de armamento, todos os "esforços" da ONU como organização num todo ou de cada país membro no âmbito nacional são insuficientes e paradoxais.

Visto que a luta governamental contra o tráfico de armas é ineficiente, dever-se-ia apostar em caminhos alternativos mas conexos com o problema. E também aqui como em tantas outras questões, a Educação é muito importante. Uma aposta forte na mudança de mentalidade entre os jovens de bairros problemáticos e a abertura de mais portas para um futuro longe do caminho traçado pelos seus antecessores é vital, pois se não existir no futuro procura de armas, deixa de fazer sentido a sua oferta. Já para não falar no impacto positivo que traria para outros tipos de criminalidade directamente ligada a este tráfico.
Mas é claro que, apesar dos esforços de pessoas sérias, há muitos cargos decisórios ocupados por gente que pensa apenas nos seus proveitos pessoais. Fazer bairros sociais à pressa e só por fazer poderá ser ainda pior do que deixar estar tudo como está a nível criminal. Vejam-se casos como o do Vale da Amoreira, no conselho da Moita, se ainda não foi compreendida a minha opinião: esta localidade foi crescendo sem o olhar atento e sério das entidades que foram enviando cada vez mais pessoas para bairros sociais. A precariedade a nível habitacional, financeiro e cultural – para nada mais nomear – com que a população local vivia criou as condições necessárias para que uma zona entre Barreiro e Moita se tornasse um viveiro de delinquentes e criminosos, dos mais temidos pelas populações residentes nesta parte do distrito de Setúbal. E depois de se fazer a asneira lá se vem tentar tapar o buraco…que mesmo assim continua a ficar descoberto em muitos casos.


Com os melhores cumprimentos,
Fernando Sosa.




PS: haverá por certo pessoas muito mais informadas do que eu sobre o caso específico do Vale da Amoreira. Se assim acharem conveniente, estão à vontade para completar ou corrigir a minha ideia sobre tal localidade.