sábado, 25 de outubro de 2008

De Sorumbático para aqui III

E é com enorme atraso que aqui chega mais um texto premiado pelo Sorumbático. Como se costuma dizer, mais vale tarde do que nunca.

Diga-se também que a fraca produção do blogue nas últimas semanas - pelo menos naquilo que à minha pessoa diz respeito - deve-se sobretudo à falta de tempo. Ou melhor dizendo, visto que todos os dias têm 24h (à excepção daqueles em que muda a hora, como está prestes a acontecer), à utilização do tempo disponível para fins mais urgentes.
(In)Felizmente também não existem assim tantos leitores à espera de posts deste blogue.


Aqui fica o texto e respectivo link para melhor compreensão sobre o passatempo:

«A sudeste de Fez, perto das Montanhas do Atlas e entalado entre os rios Bou Regreg e Moulouya – ambos filhos do Atlas Médio-, o calor é por norma abrasador. Espera-se e desespera-se por uma brisa de ar fresco, por mais leve que seja. Aqui não há ar condicionado, nem máquinas de refrigerantes. O gado precisa de se alimentar e eu não posso enjeitar o trabalho. A numerosa família espera-me ao lusco-fusco e desapontá-los não é opção. Assim é a minha vida há duas décadas, ou talvez mais, que a memória já é longa. E ano após ano o sol das 12h contínua implacável.

O meu irmão mais velho, Youssef, o mais expedito da irmandade, foi o mais bem sucedido. É hoje um comerciante respeitado em Tétouan, não só pelos nossos compatriotas, mas também por empresários ibéricos que àquela cidade atraem milhares de turistas todos os anos. Ele disse-me que o devia ter acompanhado quando novo partiu para a cidade. Eu não quis e embora pudesse ser hoje como ele, abastado e invejado, não estou triste. Esta areia faz parte de mim tal qual como Ceuta e Melilla voltaram a ser marroquinas. A vida é difícil por aqui, não hajam dúvidas. O trabalho é duro e a semana em que trabalhar quarenta horas saber-me-á a férias. Mas eu tenho aqueles que para mim são os dois maiores privilégios do mundo: no final do dia, ao chegar a casa, posso abraçar os meus cinco filhos e ainda apreciar o pôr-do-sol sobre a montanha que me viu nascer, crescer e, com muito gosto meu, me verá partir desta vida.

Dou um poupado gole de água e aproveito esta hora calmosa do dia para observar melhor o forasteiro que me acaba de fotografar. Uma carregada camada de creme protector envolve o seu pálido rosto, enquanto que inúmeros carreiros de suor descem pelo seu corpo pouco habituado a tanta quentura. O que vês tu Homem moderno? Que sentimentos te provoco? Espero que pena não seja, pois seria patético: eu sou livre para apreciar o que me rodeia, não marcho juntamente com uma multidão alienada como acontece no teu país; tenho pensamentos genuínos e nada me pode roubar a liberdade da minha existência – neste deserto assim posso viver. Porventura algum género de afecto? Disso também não necessito: os meus pais souberam dividir o seu amor por todos os filhos, meus irmãos amam-me e sou o chefe de uma família que me sabe respeitar e adorar. Achas-me no meio de uma solidão? Por aí também erras, esta paisagem assim como os meus animais oferecem-me diariamente a sua plácida e reconfortante companhia.

Como vês amigo visitante, não preciso de ouro nas mãos ou de viver numa cidade para encontrar a felicidade. Aqui tenho tudo o que preciso e afastar-me desta minha casa apenas poderia ser danoso para a minha humilde e jovial existência. Talvez devesses prestar mais cuidado sobre a tua existência e preocupar-te menos comigo…



Nota: este texto não foi elaborado com a intenção de mostrar exactamente como é o dia-a-dia de um pastor marroquino, pois para isso precisaria de um pesquisa muito grande, como se poderá calcular. Espero assim não ter cometido nenhum erro aberrante.»

2 comentários:

Anônimo disse...

Felizmente a hora mudou e como temos mais uma hora diária, lá consegui passar por aqui! Ultimamente, parece-me que toda a gente anda à procura de tempo.
Será que o tempo está a diminuir, ou será que as pessoas têm cada vez mais trabalhos para realizar?
Quanto ao texto, gostei, acho que mereceste o prémio.
Em relação à vida do pastor, penso que de facto, as pessoas que vivem na montanha ou no campo levam uma vida com menos corre-corre, e são realmente mais felizes! Além disso, todos se conhecem e todos se entreajudam e ainda reconhecem a palavra "amizade"!
Marianne

Fernando Sosa disse...

Vai na volta são mesmo mais trabalhos...

Quanto ao texto, achei o menos inteligente dos três em que tive prémio. Talvez por isso tenha ficado em terceiro lugar. Mas se gostou fico feliz por isso, como é lógico.


E não há dúvida que no meio rural, regra geral, a entreajuda é maior e os níveis de stress bem menores.


Resta-me agradecer por mais um de muitos comentários que vão alimentando a vida deste blogue.