E é com enorme atraso que aqui chega mais um texto premiado pelo Sorumbático. Como se costuma dizer, mais vale tarde do que nunca.
Diga-se também que a fraca produção do blogue nas últimas semanas - pelo menos naquilo que à minha pessoa diz respeito - deve-se sobretudo à falta de tempo. Ou melhor dizendo, visto que todos os dias têm 24h (à excepção daqueles em que muda a hora, como está prestes a acontecer), à utilização do tempo disponível para fins mais urgentes.
(In)Felizmente também não existem assim tantos leitores à espera de posts deste blogue.
Aqui fica o texto e respectivo link para melhor compreensão sobre o passatempo:
«A sudeste de Fez, perto das Montanhas do Atlas e entalado entre os rios Bou Regreg e Moulouya – ambos filhos do Atlas Médio-, o calor é por norma abrasador. Espera-se e desespera-se por uma brisa de ar fresco, por mais leve que seja. Aqui não há ar condicionado, nem máquinas de refrigerantes. O gado precisa de se alimentar e eu não posso enjeitar o trabalho. A numerosa família espera-me ao lusco-fusco e desapontá-los não é opção. Assim é a minha vida há duas décadas, ou talvez mais, que a memória já é longa. E ano após ano o sol das 12h contínua implacável.
O meu irmão mais velho, Youssef, o mais expedito da irmandade, foi o mais bem sucedido. É hoje um comerciante respeitado em Tétouan, não só pelos nossos compatriotas, mas também por empresários ibéricos que àquela cidade atraem milhares de turistas todos os anos. Ele disse-me que o devia ter acompanhado quando novo partiu para a cidade. Eu não quis e embora pudesse ser hoje como ele, abastado e invejado, não estou triste. Esta areia faz parte de mim tal qual como Ceuta e Melilla voltaram a ser marroquinas. A vida é difícil por aqui, não hajam dúvidas. O trabalho é duro e a semana em que trabalhar quarenta horas saber-me-á a férias. Mas eu tenho aqueles que para mim são os dois maiores privilégios do mundo: no final do dia, ao chegar a casa, posso abraçar os meus cinco filhos e ainda apreciar o pôr-do-sol sobre a montanha que me viu nascer, crescer e, com muito gosto meu, me verá partir desta vida.
Dou um poupado gole de água e aproveito esta hora calmosa do dia para observar melhor o forasteiro que me acaba de fotografar. Uma carregada camada de creme protector envolve o seu pálido rosto, enquanto que inúmeros carreiros de suor descem pelo seu corpo pouco habituado a tanta quentura. O que vês tu Homem moderno? Que sentimentos te provoco? Espero que pena não seja, pois seria patético: eu sou livre para apreciar o que me rodeia, não marcho juntamente com uma multidão alienada como acontece no teu país; tenho pensamentos genuínos e nada me pode roubar a liberdade da minha existência – neste deserto assim posso viver. Porventura algum género de afecto? Disso também não necessito: os meus pais souberam dividir o seu amor por todos os filhos, meus irmãos amam-me e sou o chefe de uma família que me sabe respeitar e adorar. Achas-me no meio de uma solidão? Por aí também erras, esta paisagem assim como os meus animais oferecem-me diariamente a sua plácida e reconfortante companhia.
Como vês amigo visitante, não preciso de ouro nas mãos ou de viver numa cidade para encontrar a felicidade. Aqui tenho tudo o que preciso e afastar-me desta minha casa apenas poderia ser danoso para a minha humilde e jovial existência. Talvez devesses prestar mais cuidado sobre a tua existência e preocupar-te menos comigo…
Nota: este texto não foi elaborado com a intenção de mostrar exactamente como é o dia-a-dia de um pastor marroquino, pois para isso precisaria de um pesquisa muito grande, como se poderá calcular. Espero assim não ter cometido nenhum erro aberrante.»
sábado, 25 de outubro de 2008
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2 comentários:
Felizmente a hora mudou e como temos mais uma hora diária, lá consegui passar por aqui! Ultimamente, parece-me que toda a gente anda à procura de tempo.
Será que o tempo está a diminuir, ou será que as pessoas têm cada vez mais trabalhos para realizar?
Quanto ao texto, gostei, acho que mereceste o prémio.
Em relação à vida do pastor, penso que de facto, as pessoas que vivem na montanha ou no campo levam uma vida com menos corre-corre, e são realmente mais felizes! Além disso, todos se conhecem e todos se entreajudam e ainda reconhecem a palavra "amizade"!
Marianne
Vai na volta são mesmo mais trabalhos...
Quanto ao texto, achei o menos inteligente dos três em que tive prémio. Talvez por isso tenha ficado em terceiro lugar. Mas se gostou fico feliz por isso, como é lógico.
E não há dúvida que no meio rural, regra geral, a entreajuda é maior e os níveis de stress bem menores.
Resta-me agradecer por mais um de muitos comentários que vão alimentando a vida deste blogue.
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