domingo, 30 de novembro de 2008

Ser empreendedor em Portugal

Há muito que o tema é discutido e é frequente o seu uso na retórica política, fundamentalmente usada pelos dois maiores partidos nacionais, principalmente quando são o corpo do Governo. Diversas vezes o dedo é por estes apontado à falta de criatividade, iniciativa e coragem dos empresários e potenciais empresários portugueses.

O facto de viver numa nação maioritariamente católica não me é indiferente. Embora não me baseando em nenhum estudo sociológico concreto, tenho em mente que este excessivo catolicismo, bem visível nas expressões “Deus, nosso Senhor, é que sabe” ou “O futuro a Deus pertence”, é prejudicial para a acção empresarial inovadora. Sem se aperceber, o indivíduo que profere tais expressões está-se a auto-intitular de dependente, que não tem direito ou capacidade para tentar construir o seu próprio futuro e, em última análise, não consegue encabeçar projectos ambiciosos. É claro que não são assim todos os católicos lusos, mas estou a generalizar para facilitar o raciocínio. As minhas palavras podem parecer demasiado fortes e depreciativas, ainda para mais sendo eu um confesso ateu, mas limito-me a enquadrar o tema na realidade nacional, em que existem muitas outras condicionantes.

Visto que as novas fornadas juvenis parecem cada vez mais despegadas dos aspectos religiosos (embora possam existir interacções entre o catolicismo dos progenitores e a maneira como os filhos encaram o Mundo), interessa referir que também estes podem estar condicionados, mesmo que hoje haja uma melhoria face ao século passado no que às condições para se ser empreendedor diz respeito. E as suas insuficiências partem dos seus hábitos: relacionamento nada benéfico com bebidas alcoólicas e vida nocturna desde muito jovens (e cada vez mais cedo); o facto de estarem, tal como muitos pais, alheados da vida política portuguesa e europeia, que tão importante é para o sector empresarial; vontade de permanecerem em casa dos pais até cada vez mais tarde também não parece ser condizente com a ideia de independência de montar o próprio negócio. Refira-se ainda que todos os estudos que vi sobre o espírito empreendedor nos estudantes universitários indicavam que a esmagadora maioria dos inquiridos pretendia trabalhar por conta de outrem ao invés de tentar montar o próprio negócio, assim que terminassem os estudos. É claro que não têm todos de ser patrões, mas os números revelam que Portugal é um dos piores países da UE em termos de iniciativas empreendedoras provenientes dos recém-licenciados. Pode-se apontar este facto como uma causa para a fraca competitividade das empresas lusas, quando comparadas com as de outros países comunitários: o espírito de iniciativa e liderança aliado à coragem de arriscar fazem toda a diferença no exigente mercado europeu.

Mas os problemas não morrem na falta de empreendedores. Muitos deles queixam-se, e com razão, das dificuldades em aceder ao crédito. Sendo que também aqui se têm verificado melhorias graças à acção do IAPMEI e ao aparecimento de Business Angels, ainda assim há um longo caminho a percorrer em Portugal. Isto muito por culpa da (falta de) acção do sector bancário. Porquê? Olhemos para um país repleto de imperfeições para entendermos uma virtude que cá escasseia: nos EUA os bancos desempenham um papel fulcral na actividade das start-up, concedendo crédito aos planos bem delineados, mesmo tendo noção que existem vários riscos em cada um – mas para se ganhar é preciso isso mesmo: arriscar. Porém, não são concedidos créditos “às cegas”: os maus projectos estão condenados a ficar na gaveta. Mas a importante ilação a se retirar é que mesmo sabendo que poderão ter prejuízos com alguns desses investimentos – claro que há partida não podem saber exactamente em quais –, também calculam que os negócios que atingem o sucesso cobrem claramente as restantes perdas. Refira-se também que para se assegurarem que tais créditos são bem aplicados é bastante comum introduzirem-se funcionários do banco na administração de tais empresas. Estes não precisam de ser demasiado activos, o importante é evitarem potenciais erros dos restantes gestores.

Naturalmente também se pode argumentar que o típico empresário português não aceitaria um estranho no seio da sua organização, ainda para mais vindo de quem lhe concedeu um crédito. Mas sem existir uma tentativa real e à larga escala deste mecanismo, nunca poderemos avaliar os subsequentes resultados.

Outra relevante questão é como a sociedade vê os projectos inovadores que acabam por não conseguir o seu espaço no mercado, acabando muitos deles em falência. Estas start-up que acabam por não ter o êxito pretendido são de imediato criticadas pela grande sabedoria daqueles que só sabem prever os acontecimentos depois de estes já estarem realizados. Consequentemente aponta-se o dedo ao(s) empreendedor(es) que desenharam o projecto e atribuem-se-lhe várias características depreciativas: incompetência, ingenuidade, arrogância, etc. E, assim, os próprios cidadãos com espírito de iniciativa, desmotivados por tantas e duras críticas dos seus detractores, acabam por ficar convencidos que não têm valor e que a única solução é trabalhar por conta de outrem. Há que contrariar esta corrente negativa. Os empresários jovens com forte sentido de inovação – não só tecnológica como muitos julgam, mas também ao nível de processos e organização -, liderança e ambição têm desde logo uma vitória que ninguém lhes pode retirar: a iniciativa concretizada, que corresponde à coragem de tentar ganhar a vida com um projecto próprio, sendo isto, regra geral, muito mais árduo e complexo do que ser colaborador (designação que agora se usa para “trabalhador”) no sector privado ou ser funcionário público – caso contrário qualquer indivíduo criava uma empresa. Assim, saúdo aqueles que apoiam os empresários bem sucedidos, mas também os que não tiveram, ainda, tanta sorte. Muitos são aqueles que não conseguem atingem o sucesso nas primeiras tentativas, mas que acabam por ser bem sucedidos, não estando apenas a falar agora de Portugal, antes na generalidade dos países desenvolvidos, caso contrário esta última ideia não poderia ser escrita tal como está devido à fraca insistência existente.

Também é importante que se diga que um empreendedor não é obrigatoriamente um empresário, uma pessoa que toma apenas decisões sobre o seu próprio negócio. Empreendedor pode ser aquele que inova no seu local de trabalho, mesmo sendo apenas colaborador, ou o funcionário público que encontra uma nova solução para melhorar a qualidade do serviço em que se encontra.
Tratemos então de estimular e recompensar estas pessoas, pois acredito que para a economia nacional o todo acabará por ser mais que a soma das partes. Invoco o exemplo de Henry Ford, que ao introduzir a especialização intensiva/montagem em série no processo produtivo conseguiu fabricar e vender em massa o famosíssimo Ford Model T. O que hoje nos parece tão simples foi na época uma inovação brilhante, que mudou radicalmente o mundo industrial – atenção que, sem menosprezo dos trabalhadores desse período da História, não interessa para o exemplo as condições precárias de trabalho em tais fábricas.

Lido este testamento, resta-me acrescentar que tentar cativar alunos de faculdades ligadas à esfera empresarial poderá ser determinante para o crescimento deste espírito inovador e diligente entre os profissionais do amanhã. Talvez devesse de existir um género de formação específica para aqueles que têm a obrigação de colaborar com novas ideias – desde professores a administrativos, tanto no sector privado como no público –, benéficas para a economia e para a qualidade dos serviços nacionais. Porque é importante corrigir, mas também incentivar e, se possível, apresentar soluções alternativas a quem se esforça por fazer a diferença num país em que reina a mediocridade. Chega de críticas que nada de positivo acrescentam aos projectos reais de esforçados e, muitas vezes, brilhantes sonhadores!


PS: Não cumpri com o prazo a que me propus publicar este post, mas espero que tenha valido a pena o atraso. Porventura está demasiado extenso para o local em que é publicado, mas não resisti a continuar a escrever, talvez para afugentar o frio!

6 comentários:

Anônimo disse...

Pois é, neste país sobressai a mediocridade e quem pode colocar em prática os seus projectos são os que têm conhecidos, padrinhos ou afins!
Repara bem: quem são os gestores de empresas, bancos...? Os filhos ou os afilhados dos senhores doutores etc, etc, etc!
Portugal precisa de gente empreendedora e com ideias luminosas, mas precisa também de mudar de mentalidade: temos de começar a recompensar os bons, os melhores e não (apenas) os nossos entes queridos.
Enquanto não acabarem os panelões e os tachos, os bons profissionais vão-se perdendo entre tanta gente mediocre, perante a inércia de governos, dos donos das empresas...
Marianne

Fernando Sosa disse...

Bem, esse devia ser de facto o ponto que faltava: a cunha portuguesa.
Lá que um patrão ou gestor do sector privado queiram meter um familiar qualquer em vez de um profissional competente é com eles, já que acabarão por ter uma pessoa a ocupar um posto abaixo do rendimento que outro poderia ter. Sendo assim, tanto é prejudicado o candidato competente como os empregadores, embora estes últimos por opção própria.
Agora, considero muito mais graves as cunhas no sector público, já que são todos os contribuintes a pagar. Aqui deveriam ser seleccionados apenas os melhores dos candidatos, mas, como todos sabemos, as escolhas recaem quase sempre sobre familiares, amigos ou militantes do mesmo partido.

E agora tenho que acabar por fazer uma auto-crítica: vivendo eu num país deste tipo, tendo familiares/amigos que já beneficiaram de situações semelhantes - umas piores que outras -, como é que pude falar de corrupção em Angola, neste sítio, há uns meses atrás?!

Cumprimentos.

Arsenio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:
O seu «testamento» é realmente positivo! Aborda lucidamente causas fundamentais do nosso atraso socioeconómico, focando o baixo nível do empreendorismo, ou, para mim, empresadorismo, dos jovens licenciados, que gostaria de ver sair das faculdades bem formados nesse sentido. Parece-me um contributo muito positivo para melhor percebermos as dificuldades em que se debate em geral este país perpetuamente adiado!
Quanto à influência do catolicismo nas mentalidades, deixe-me só contar-lhe: uma professora amiga acaba de me explicar que o seu filho ficou com o carro na sucata devido a acidente mas que, graças a deus, ele próprio nada sofreu; concluí logo que o acidente terá sido mandado por... que entidade maléfica?! :-)
Saudações cordiais.

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,
fala do empresadorismo como algo simplesmente proveniente do empresador ou é algo mais detalhado e com uma grande diferença de empreendedorismo? Fiquei curioso nesse ponto.

Esse exemplo que apresentou sobre o catolicismo é óptimo e explica tanta e tanta coisa. E é que as pessoas geralmente nem se dão conta daquilo que realmente estão a dizer.

Cumprimentos.

Arsenio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:
Respondendo à sua interrogação, direi apenas que prefiro falar de empresários, expressão que me parece nítida. A noção de «empreendimento» tem para mim outra dimensão e outro alcance. Por alguma razão no seu texto aceita que um colaborador de empresa que avança com uma sugestão que melhora a produção da sua empresa é de certo modo também um «empreendedor». Li bem? Fui claro? Oxalá!
Mas note por favor que estas não são as minhas águas habituais de navegação! Admito errar na justa classificação (académica)...
Abraço.

Fernando Sosa disse...

Ah sim, caro Arsénio Mota, compreendo agora perfeitamente porque usou tal termo. Parece-me legítimo o seu ponto de vista. Por norma usa-se a palavra empreendedorismo tanto para o empregador como para o colaborador, dentro do assunto aqui tratado, mas acho justo falarmos então de "empresadorismo" se nos referir-mos apenas ao primeiro.

Cumprimentos.