Recebi há não muito tempo um mail que tinha como objectivo criticar o Governo de Sócrates por ter prestado uma ajuda ao Estado da Palestina na construção de um estádio naquela região, no valor monetário de dois milhões de euros.
Se não existem recursos financeiros para hospitais e escolas para os portugueses, como se podem fazer este tipo de ofertas a estrangeiros? É este o fundamento principal de tal crítica. Em tempos também vi com maus olhos este tipo de ajudas às nossas antigas colónias africanas. Porém, hoje tenho uma visão mais ampla do funcionamento das relações internacionais e compreendo melhor a importância que reside no facto de Portugal melhorar a sua imagem no exterior.
Mais do que uma “esmola”, acredito que o Governo visou defender os interesses lusos no exterior, tentando transmitir àquele Estado e a toda a região envolvente uma imagem de um país desenvolvido e pronto a cooperar no futuro, se assim for proveitoso para as partes em causa. Perguntarão em que medida é que a construção do Estádio Internacional da cidade de Al-Kahder trará benefícios para Portugal, para nós, e eu direi prontamente que não posso garantir nem quantificar futuras mais-valias. Não consigo nem adivinhar o futuro nem saber quais os planos do nosso Governo a este nível. Sei apenas que num passado não muito distante também houve quem tenha posto em causa o florescimento de relações diplomáticas com a Líbia e, no entanto, para alguns investidores portugueses as portas daquele país tão fechado para o exterior já se abriram.
Em economia as expectativas dos agentes económicos assumem vezes sem conta uma importância extrema. Basta um breve olhar pelo mercado bolsista para se entender como as expectativas podem ser mais importantes que os próprios lucros reais. Mas não é apenas na esfera económica que as expectativas são importantes. As expectativas em torno de líderes carismáticos já formaram e destruíram impérios no passado, para se entender melhor tal peso.
Assim, não nos podemos guiar apenas pelos números no curto prazo, há que ter uma visão que contemple o médio e longo prazo e onde não interessam apenas os ditos números. A importância da imagem da nossa nação nunca deverá ser descurada por nós nem se resume a feitos futebolísticos. Também as missões humanitárias e operações militares a nível internacional são bastante relevantes na defesa do nosso nome colectivo, no sentido em que podemos ser catalogados pela opinião pública de outros países como uma nação com um papel activo na geopolítica internacional (isto para quem acha que Portugal não deve renovar as suas forças militares).
Somos um país pequeno com um reduzido poder político e económico, não podendo actualmente ter um peso na UE como a França ou Alemanha nem na ONU como os EUA, mas isso também não põe em causa a nossa capacidade para ir alargando os nossos objectivos e trazendo pequenas grandes vitórias para casa. É bom lembrar que são estes tipos de avanços que podem fazer a diferença na hora de organizar eventos internacionais, ganhar concursos em obras públicas de outros países, alterar a nossa fronteira marítima, etc.
Não digo que as escolas e os hospitais não mereçam a nossa atenção e preocupação, pois é bem claro que o merecem. Apenas não nos pudemos reduzir a um par de questões se queremos crescer enquanto país. Portugal tem e terá sempre de alargar os seus horizontes para se desenvolver. É lógico que não deveremos entrar em loucuras, tentar fazer mais do que aquilo que realmente está ao nosso alcance, mas não me parece que dois milhões de euros tenham sido gastos num acto de demência.
Por último, quero ainda salientar que não sou um defensor cego do nosso Governo, nem apoiante sequer. Apenas considero que para se criticar devem-se apresentar argumentos fortes e bem ponderados, para evitar a crítica de fácil de concepção, mas também fácil de pôr em causa ou refutar cabalmente. Haja bom senso!
3 comentários:
que é que construiu o estadio? por ou pal(empresa)?
Construir estádios de futebol e encerrar escolas, matermidades, hospitais e centros de saúde, só porque não dão lucros, para mim, já é uma situação aberrante!
Só nos falta mesmo vermos os nossos cemitérios encerrados e termos de levar os nossos entes queridos para Espanha!
Em Portugal dão-se estádios de futebol para entreter os portugas e estes por falta de cultura até agradecem e "esquecem-se" dos problemas domésticos e caseiros! Certo? Pois é, eles andam a enganar o Zé Povinho!
Vermos mendigos em cada esquina, vermos gente a ficar sem emprego diariamente, vermos gente doente e forçada a trabalhar, sermos quase todos obrigados a trabalhar 40 sem condições... até aqui tudo bem, o país precisa de sacrificios de todos!
Mandar construir um estádio de futebol num sítio onde nós (portugas) não somos conhecidos, onde se calhar nem se joga futebol, tudo na maior!
Quantos portugueses sabem onde fica esse estádio?
Óptimo! Somos cada vez mais ignorantes, (cada vez temos menos escolas), por isso... certamente não tem importância!
Agora deixarmos portugas a morrer de fome, por falta de socorros, por falta de medicamentos, por falta de vacinas, de instrução...
e o Governo Português ir gastar o dinheiro dos meus impostos num sítio que nunca poderei visitar?
Em nome de quê?
Em nome de quem?
Em Portugal já há estádios a mais, agora construir no estrangeiro para ficarmos bem vistos e obrigarmos os portugas a apertar o cinto e a pagar cada vez mais?
Pois é, primeiro temos de olhar para nós mesmos, temos de "arrumar" a nossa casa e só depois nos podemos dar ao luxo ajudar os outros.
Para mim, seria impensável ver os meus filhos a morrer de fome e ajudar os filhos dos meus vizinhos.
Penso o mesmo em relação ao meu País!
Sou egoista, ou realista?
Aliás, o Zé Portuga não consegue pensar de barriga vazia e eu também não!
Para mim, o Governo está a esbanjar e está apenas a governar-se!
Marianne
Não sei que empresas estiveram envolvidas na construção de tal estádio. A informação a que tive acesso não especificava essa parte.
Quanto ao seu comentário, Cara Marianne, devo dizer que muito me agrada que o meu post a tenha cativado para realizar um comentário, que não foi propriamente curto. É bom saber que não dispomos todos das mesmas opiniões e é melhor ainda que possamos debate-las.
Como dei a entender, a Educação e a Saúde também merecem a minha atenção, assim como também o Governo tem que se debruçar com afinco sobre os seus problemas e o seu futuro. Considero que em ambas as áreas o nosso país tem que evoluir imenso, necessitando ambas de profundas reformas, quer certos grupos de interesse gostem ou não (e não me estou apenas a professores e médicos, nem a nenhum decreto-lei em especifico).
Para o bom funcionamento destes serviços o Estado tem que dirigir a estes muitos milhões de euros, visto que em Portugal ainda existe um Estado Providência. Mas se todos esses milhões não forem utilizados de forma eficiente, de pouco servem pequenos ajustes orçamentais. Considero que o aperfeiçoamento da máquina burocrática, isto é, a optimização dos recursos dispensados à mesma, é mais urgente do que qualquer corte em pequenos gastos diplomáticos, já que estes não são muitas vezes inúteis como pode ser pensado. Dei o exemplo da Líbia, mas parece não ter sido suficiente ou, então, a ideia até passou, só que não se acredita que seja correcto encaminhar recursos para as relações internacionais sem antes resolver os problemas internos. Mas e se eu afirmar que não é de todo descabido oferecer ajuda a outras nações para a médio prazo aliviar tais problemas? “Como é isso possível?” Passo a explicar: o desemprego de que tanto se queixam os sindicatos e o pessoal das faculdades insignificantes está em parte ligado ao sucesso das empresas nacionais. Com um mercado reduzido como o nosso e com a concorrência feroz de multinacionais estrangeiras urge internacionalizar as empresas nacionais a nível produtivo e/ou a nível comercial. O sucesso das exportações de tais empresas fará com que injectem dinheiro novo no território e darão espaço a projectos de consolidação e/ou expansão da actividade produtiva ou, até, diversificação da carteira de negócios de cada empresa. Isto levará a uma necessidade de recrutar mais mão-de-obra, reduzindo assim o desemprego. Desta forma, através da internacionalização atinge-se não só o objectivo de baixar o desemprego, como também aumentar o PIB.
“Até aqui tudo bem, mas onde entram os gastos de diplomacia?” Bom, vejamos as coisas numa lógica publicitária: Portugal não é apenas uma nação, tem uma imagem, é uma marca (e que alberga outras marcas, basta ver o caso do Allgarve). E como qualquer marca, se quer ser reconhecido de forma positiva tem que fazer por isso, tem que se dar a conhecer. Se nós queremos entrar na Palestina com os nossos produtos e serviços temos não só que ter qualidade, mas, mais do que isso, os potências clientes têm que pensar que temos qualidade. Será que eles depositarão confiança numa nação de que pouco conhecem ou que têm uma imagem negativa (EUA, por exemplo) ou a outra que lhes ofereceu um estádio, que demonstrou solidariedade? E o seu Governo imporá restrições a uma nação com a qual não tem relações ou a outra com quem vem desenvolvendo esforços diplomáticos?
Dirão que tudo o que digo é hipotético. E eu concordo, mas as bases de tal hipótese que descrevo são bem reais, quer se venha a realizar ou não. E este é apenas um de muitos exemplos que podem ser expostos, mas não faz sentido continuar neste espaço esse tipo de argumentação.
Relativamente aos “estádios de futebol para entreter os portugas”, isso já é outro assunto. O Euro 2004 tem muito que se lhe diga, tanto que não caberia aqui tudo, por isso nem vou começar.
Cumprimentos.
PS: espero não ter sido muito confuso nesta minha resposta, mas o tempo que tive disponível para a conceber foi reduzido. Perdoem-me se cometo algum erro grosseiro em termos gramáticos ou em termos de fio de raciocínio.
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